segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

4. A Ignorância é uma Benção


O melhor cookie do mundo, infelizmente, fica em Nova York. Já quis começar assim porque é realmente frustrante saber que lá tem alguma coisa tão boa para a qual, por motivos geográficos, não temos acesso quando bem entendemos (a não ser que você, leitor, more em Nova York).

Essa pequena confeitaria, chamada Magnolia Bakery, fica numa esquina, sem chamar a atenção. Na verdade, a única coisa que chama a atenção nela é a fila que fica na porta. Dá volta no quarteirão, se você não sabe o que tem lá, chega a achar que estão dando alguma coisa de graça. Por dentro ela é bem simples, o foco todo está nos bolos, pudins e cookies. A ambientação toda é de cozinha, com fornos, batedeiras, balcões de madeira e várias e muitas confeiteiras trabalhando freneticamente.

Eu tenho um fraco pra bolo, confesso que foi uma tortura entrar lá. A escolha recaiu sobre os cupcakes (pequenos bolos tipo bebezinho com os mais diversos cremes por cima) e sobre os cookies. Experimentei primeiro os pequenos bolos, excelentes, mas um pouco enjoativos por causa das coberturas (nos EUA eles chamam de Icing) que, como não levam brigadeiro ou leite condensado, acabam ficando com um gosto muito forte de manteiga.

O momento pra ser lembrado foi a primeira mordida no cookie. O escolhido foi um de Brown Sugar (açúcar mascavo). Nunca comi nada parecido nesta “categoria gastronômica” (se é que biscoito é categoria...). Pra começar, a massa é crocante e ao mesmo tempo macia, dá a impressão de que ele acabou de sair do forno e por isso ainda não está totalmente “duro”. O sabor é uma mistura de baunilha com mel e amêndoas difícil de descrever! Dá vontade de comer um pote inteiro sem parar. Eles não são enjoativos, muito pelo contrário, são super leves. Eu ainda experimentei o de White Sugar (açúcar branco) que tem o mesmo fundo de baunilha e amêndoas, mas menos gosto de mel. Nunca mais me esqueço daquele sabor.

Quem for para Nova York tem que colocar essa pequena loja como parada obrigatória. Ou talvez não, afinal, dizem alguns sábios que a ignorância pode ser uma benção.

JLN

The Magnolia Bakery - 401 Bleecker Street New York

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

3. A Incessante Busca pela Itália

Já é notório aqui no nosso pequeno e singelo Blog que este que vos escreve é um profundo apreciador e experimentador da culinária italiana contemporânea.  Pois bem, Nova York tem uma rica história italiana (vide o Poderoso Chefão... rs) e ela deve ser pesquisada e experimentada.  Ainda que desta vez em apenas uma oportunidade, mas não poderia deixar de visitar algum dos templos da comida italiana na Big Apple.

Munido de uma grande dica (essa não da minha irmã) fui lá, procurar um tal de Carmine’s. Em Manhattan são dois endereços, sendo um no buxixo e outro mais afastado – esse foi o escolhido, até porque é a casa original.  Chegando lá, a aparência de restaurante familiar, com um grande bar na entrada, servindo cocktails, cervejas e qualquer outro tipo de bebida.  O interessante nos EUA é que, enquanto você espera, se beber, paga na hora.  O bar é o bar e o restaurante é o restaurante, parecem dois estabelecimentos separados.  Era almoço, fomos na cerveja.  Bebi um chopp Samuel Adams que estava uma delícia, apesar dos copos serem grandes demais deixando a bebida esquentar.

Chega nossa mesa.  Ambiente familiar, cara de cantina, não daquelas que estamos acostumados em SP, com coisas que até Deus duvida penduradas no teto.  Uma decoração italiana mais discreta, mas bastante elaborada – fotos de Raimundo e todo mundo nas paredes junto com o cardápio completo em algumas partes.  Como escolhemos um endereço distante, praticamente éramos os únicos turistas no restaurante, cheio de famílias “Ítalo-novaiorquinas” em mesas sempre de mais de 10 pessoas (era um sábado).  Obviamente bastante barulho, me senti em casa.

O cardápio é recheado de massas com molho vermelho, o forte da casa.  A escolha recaiu sobre um prato simples, mas que mostra a qualidade do restaurante.  Spaghetti ao molho de tomates e polpettes.  Parece trivial demais, mas o spaghetti é uma massa complicada, deixá-la ao dente (sem contar a qualidade do grano duro) é quase uma arte.  O molho de tomate, o primeiro que eu como fora do Brasil que não é ácido demais e seco ou doce por causa do açúcar pra tirar a acidez. Ainda alguns lugares capricham na pimenta pra compensar a pobreza dos temperos.  O molho estava impecável.  Grosso, mas não seco, sabor forte de tomates e azeite, condimentos na medida certa e zero acidez.  Parecia uma orquestra com a massa.  E os polpettes, um fenômeno!  Apesar de grandes, eram macios, mas sem vestígios de pão com leite dentro (uma técnica interessante, mas não utilizada nesse restaurante).  Cozidos no molho de tomate, caem com o spaghetti como se fossem feitos um para o outro.  Enfim, um prato simples, mas perfeito!  E gigante!  Junto com o pão italiano e um outro que vem com molho de tomate por cima na entrada, não houve espaço pra sobremesa.  Nova viagem de ambulância para o hotel e um sorriso no rosto por ter comido comida italiana perfeita que não veio nem da Itália e nem de SP.

JLN

Carmine's - 2450 Broadway, New York e mais um endereço em Manhattan

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

2. Aquele do Desenho Animado com o Osso no Meio

E lá vamos nós, pra outra grande dica da minha irmã: o pretenso melhor Steak de Nova York. Chamado de Peter Luger, a casa fica no Brooklyn e desde 1887 serve um T-Bone que eu nunca vi parecido. Ele ocupa uma travessa inteira e tem o osso em T perfeito no meio. Vem lindamente grelhado, molhado, e com um cheiro que hipnotiza.

Cortado em tiras, cada pedaço é perfeito. É um corte de Porter House, um tipo de carne chamada de “marmorizada”, ou seja, com lâminas de gordura entremeadas, que derretem na grelha, espalhando sabor e maciez na carne (ainda crua, ela tem o aspecto de mármore). Nunca comi nada tão macio – sem exagero e linguagem figurativa, a carne derrete na boca como chocolate. Por ser marmorizada e maturada, não tem sabor dos tradicionais amaciantes de carne que os americanos adoram usar. Poucas vezes comi algo tão bom.

Só recomendo ir lá no almoço. Esse restaurante é um prazer que cobra a conta depois – é pesado, o after é parecido ao que se tem após uma festa da costela: a sensação de ter uma pedra na barriga. E como tudo em Nova York, faça reserva, se não você não senta.

JLN

Peter Luger - 178 Broadway, Brooklyn, New York

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

1. Pi Djei

É como se deve pronunciar o início do nome: P. J. Clarke´s. Se vai a Roma, visite o Papa. Em Nova York, coma um hamburger. Faça isso com classe: segundo a dica da minha irmã (mais feliz que eu, praticamente freqüentadora assídua de Nova York), Frank Sinatra, quando estava por lá, tinha mesa cativa.

E não é que o Frank (perdoem-me a intimidade) tinha razão? O cardápio é eclético, mas o hit é o hamburger. Um Senhor hamburger gourmet, preparado no prato, decorado, com queijo meticulosamente derretido, feito ao ponto, vermelho por dentro, crocante por fora, molhado, suculento. O pão vem levemente tostado, aberto para você montar da maneira que bem entender. Pedi um com queijo suíço e cogumelos. Seguem a alface, o tomate e as fritas.  Você fecha tudo, aperta, dá o toque de ketchup e aperta a boca em volta dele. Uma explosão de sabor. Frank tinha seus motivos.

De sobremesa experimentei uma Apple Crumble – uma espécie de torta de maçã com cobertura crocante, quente, moldada pela cumbuca, não enjoativa, coberta com generosa bola de sorvete e fundinho de canela e mel. Saí de lá de ambulância!

E antes que eu me esqueça, resolvi também explorar um pouco as difamadas cervejas americanas (sempre aguadas e amargas um pouco além da conta). Algumas boas surpresas: a Samuel Adams (Ale avermelhada e saborosa), a Blue Moon (artesanal Lager do Brooklyn) e, viva a globalização, chopp Stella (um pouco mais amargo do que o que trouxeram para o Brasil). Ponto para os EUA! Não só de Budweiser vivem os americanos!

Mais tarde, já de volta a SP, descobri que abriram uma “filial” da casa na Rua Mario Ferraz. Fui lá e foi honesto. Claro que nada parecido com o original. A impressão que tive é que por aqui, o representante é comerciante e não gourmet. Não tem Apple Crumble, não tem a cara de antigo (e o charme também), não fica na frente do Lincoln Center e não tem a mesa do Frank.

JLN

P.J.Clarke’s - 44 W 63rd St, New York e outros 4 endereços

P.J.Clarke’s São Paulo – Rua Dr. Mário Ferraz, 568, São Paulo

Vamos Olhar um Pouco pra Fora

Nunca escondi meu desdém pela “culinária anglo-saxônica”.  Nigella e Jamie Oliver que me perdoem, mas Fish & Chips e feijão doce com Marshmallow deveriam entrar na mesma categoria culinária do churrasquinho grego por R$1,00 com suco grátis lá do centro de SP.  Assim como não é segredo que desisti dos Mexicanos em SP (tá bom, vai, nunca vou conseguir deixar de procurar), toda vez que viajo pros EUA ou pra Londres (o que não tem acontecido com muita freqüência, infelizmente), eu já vou pensando em outros prazeres que a viagem pode proporcionar que não a gastronomia.

Estive, felizmente, em Nova York agora na virada do ano. Resolvi procurar um pouco e preparar um roteiro gastronômico para tentar descobrir se a grande maçã tem algum poder de fogo pra competir com São Paulo.  Como a verba era limitada, não deu pra explorar horrores, mas do pouco que vi, ouvi, bebi e comi, posso dizer que tive boas surpresas.

Farei uma série de quatro posts falando sobre as experiências que valeram a pena e devem ficar registradas.  Elas contribuem para um dos objetivos deste Blog, que é o registro de detalhes e características que diferenciam alguns lugares de outros. Por isso peço aos prestigiosos freqüentadores do Blog que não me levem a mal por escrever sobre Nova York.

De qualquer jeito, ficam as dicas. Espero que se alguém for pra lá, não se sinta perdido – use-as de ponto de partida.

JLN

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Salgadinho também é comida

O melhor salgado de SP, na opinião de peso de um viciado nestas minúsulas maravilhas fritas em óleo, está localizado no Cambuci, na avenida Lins de Vasconcelos. Um bando de japas simpáticos tocam o Yokoyama, uma pastelaria de 35 anos, que faz excepcionais salgadinhos de tipos e sabores variados. O meu uniqueness vai para o bolinho de carne, feito com massa de batata e um recheio levemente temperado... Só de lembrar fico aguado...
Merecem destaque a esfiha de escarola e os pasteis de carne e palmito. Tudo feito na hora, com óleo sempre renovado, acompanhados daqueles sucos tosqueiras, de máquina, perfeitos na combinação "no-low fat" que este post evoca. Quando estou com vontade de chutar o balde, vou até lá, compro uma porrada de salgados para viagem e venho comendo enquanto dirijo para casa, no carro mesmo... Recomendo.

Yokoyama - Avenida Lins de Vasconcelos, 1365 - Cambuci.