quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

3. A Incessante Busca pela Itália

Já é notório aqui no nosso pequeno e singelo Blog que este que vos escreve é um profundo apreciador e experimentador da culinária italiana contemporânea.  Pois bem, Nova York tem uma rica história italiana (vide o Poderoso Chefão... rs) e ela deve ser pesquisada e experimentada.  Ainda que desta vez em apenas uma oportunidade, mas não poderia deixar de visitar algum dos templos da comida italiana na Big Apple.

Munido de uma grande dica (essa não da minha irmã) fui lá, procurar um tal de Carmine’s. Em Manhattan são dois endereços, sendo um no buxixo e outro mais afastado – esse foi o escolhido, até porque é a casa original.  Chegando lá, a aparência de restaurante familiar, com um grande bar na entrada, servindo cocktails, cervejas e qualquer outro tipo de bebida.  O interessante nos EUA é que, enquanto você espera, se beber, paga na hora.  O bar é o bar e o restaurante é o restaurante, parecem dois estabelecimentos separados.  Era almoço, fomos na cerveja.  Bebi um chopp Samuel Adams que estava uma delícia, apesar dos copos serem grandes demais deixando a bebida esquentar.

Chega nossa mesa.  Ambiente familiar, cara de cantina, não daquelas que estamos acostumados em SP, com coisas que até Deus duvida penduradas no teto.  Uma decoração italiana mais discreta, mas bastante elaborada – fotos de Raimundo e todo mundo nas paredes junto com o cardápio completo em algumas partes.  Como escolhemos um endereço distante, praticamente éramos os únicos turistas no restaurante, cheio de famílias “Ítalo-novaiorquinas” em mesas sempre de mais de 10 pessoas (era um sábado).  Obviamente bastante barulho, me senti em casa.

O cardápio é recheado de massas com molho vermelho, o forte da casa.  A escolha recaiu sobre um prato simples, mas que mostra a qualidade do restaurante.  Spaghetti ao molho de tomates e polpettes.  Parece trivial demais, mas o spaghetti é uma massa complicada, deixá-la ao dente (sem contar a qualidade do grano duro) é quase uma arte.  O molho de tomate, o primeiro que eu como fora do Brasil que não é ácido demais e seco ou doce por causa do açúcar pra tirar a acidez. Ainda alguns lugares capricham na pimenta pra compensar a pobreza dos temperos.  O molho estava impecável.  Grosso, mas não seco, sabor forte de tomates e azeite, condimentos na medida certa e zero acidez.  Parecia uma orquestra com a massa.  E os polpettes, um fenômeno!  Apesar de grandes, eram macios, mas sem vestígios de pão com leite dentro (uma técnica interessante, mas não utilizada nesse restaurante).  Cozidos no molho de tomate, caem com o spaghetti como se fossem feitos um para o outro.  Enfim, um prato simples, mas perfeito!  E gigante!  Junto com o pão italiano e um outro que vem com molho de tomate por cima na entrada, não houve espaço pra sobremesa.  Nova viagem de ambulância para o hotel e um sorriso no rosto por ter comido comida italiana perfeita que não veio nem da Itália e nem de SP.

JLN

Carmine's - 2450 Broadway, New York e mais um endereço em Manhattan

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

2. Aquele do Desenho Animado com o Osso no Meio

E lá vamos nós, pra outra grande dica da minha irmã: o pretenso melhor Steak de Nova York. Chamado de Peter Luger, a casa fica no Brooklyn e desde 1887 serve um T-Bone que eu nunca vi parecido. Ele ocupa uma travessa inteira e tem o osso em T perfeito no meio. Vem lindamente grelhado, molhado, e com um cheiro que hipnotiza.

Cortado em tiras, cada pedaço é perfeito. É um corte de Porter House, um tipo de carne chamada de “marmorizada”, ou seja, com lâminas de gordura entremeadas, que derretem na grelha, espalhando sabor e maciez na carne (ainda crua, ela tem o aspecto de mármore). Nunca comi nada tão macio – sem exagero e linguagem figurativa, a carne derrete na boca como chocolate. Por ser marmorizada e maturada, não tem sabor dos tradicionais amaciantes de carne que os americanos adoram usar. Poucas vezes comi algo tão bom.

Só recomendo ir lá no almoço. Esse restaurante é um prazer que cobra a conta depois – é pesado, o after é parecido ao que se tem após uma festa da costela: a sensação de ter uma pedra na barriga. E como tudo em Nova York, faça reserva, se não você não senta.

JLN

Peter Luger - 178 Broadway, Brooklyn, New York

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

1. Pi Djei

É como se deve pronunciar o início do nome: P. J. Clarke´s. Se vai a Roma, visite o Papa. Em Nova York, coma um hamburger. Faça isso com classe: segundo a dica da minha irmã (mais feliz que eu, praticamente freqüentadora assídua de Nova York), Frank Sinatra, quando estava por lá, tinha mesa cativa.

E não é que o Frank (perdoem-me a intimidade) tinha razão? O cardápio é eclético, mas o hit é o hamburger. Um Senhor hamburger gourmet, preparado no prato, decorado, com queijo meticulosamente derretido, feito ao ponto, vermelho por dentro, crocante por fora, molhado, suculento. O pão vem levemente tostado, aberto para você montar da maneira que bem entender. Pedi um com queijo suíço e cogumelos. Seguem a alface, o tomate e as fritas.  Você fecha tudo, aperta, dá o toque de ketchup e aperta a boca em volta dele. Uma explosão de sabor. Frank tinha seus motivos.

De sobremesa experimentei uma Apple Crumble – uma espécie de torta de maçã com cobertura crocante, quente, moldada pela cumbuca, não enjoativa, coberta com generosa bola de sorvete e fundinho de canela e mel. Saí de lá de ambulância!

E antes que eu me esqueça, resolvi também explorar um pouco as difamadas cervejas americanas (sempre aguadas e amargas um pouco além da conta). Algumas boas surpresas: a Samuel Adams (Ale avermelhada e saborosa), a Blue Moon (artesanal Lager do Brooklyn) e, viva a globalização, chopp Stella (um pouco mais amargo do que o que trouxeram para o Brasil). Ponto para os EUA! Não só de Budweiser vivem os americanos!

Mais tarde, já de volta a SP, descobri que abriram uma “filial” da casa na Rua Mario Ferraz. Fui lá e foi honesto. Claro que nada parecido com o original. A impressão que tive é que por aqui, o representante é comerciante e não gourmet. Não tem Apple Crumble, não tem a cara de antigo (e o charme também), não fica na frente do Lincoln Center e não tem a mesa do Frank.

JLN

P.J.Clarke’s - 44 W 63rd St, New York e outros 4 endereços

P.J.Clarke’s São Paulo – Rua Dr. Mário Ferraz, 568, São Paulo

Vamos Olhar um Pouco pra Fora

Nunca escondi meu desdém pela “culinária anglo-saxônica”.  Nigella e Jamie Oliver que me perdoem, mas Fish & Chips e feijão doce com Marshmallow deveriam entrar na mesma categoria culinária do churrasquinho grego por R$1,00 com suco grátis lá do centro de SP.  Assim como não é segredo que desisti dos Mexicanos em SP (tá bom, vai, nunca vou conseguir deixar de procurar), toda vez que viajo pros EUA ou pra Londres (o que não tem acontecido com muita freqüência, infelizmente), eu já vou pensando em outros prazeres que a viagem pode proporcionar que não a gastronomia.

Estive, felizmente, em Nova York agora na virada do ano. Resolvi procurar um pouco e preparar um roteiro gastronômico para tentar descobrir se a grande maçã tem algum poder de fogo pra competir com São Paulo.  Como a verba era limitada, não deu pra explorar horrores, mas do pouco que vi, ouvi, bebi e comi, posso dizer que tive boas surpresas.

Farei uma série de quatro posts falando sobre as experiências que valeram a pena e devem ficar registradas.  Elas contribuem para um dos objetivos deste Blog, que é o registro de detalhes e características que diferenciam alguns lugares de outros. Por isso peço aos prestigiosos freqüentadores do Blog que não me levem a mal por escrever sobre Nova York.

De qualquer jeito, ficam as dicas. Espero que se alguém for pra lá, não se sinta perdido – use-as de ponto de partida.

JLN

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Salgadinho também é comida

O melhor salgado de SP, na opinião de peso de um viciado nestas minúsulas maravilhas fritas em óleo, está localizado no Cambuci, na avenida Lins de Vasconcelos. Um bando de japas simpáticos tocam o Yokoyama, uma pastelaria de 35 anos, que faz excepcionais salgadinhos de tipos e sabores variados. O meu uniqueness vai para o bolinho de carne, feito com massa de batata e um recheio levemente temperado... Só de lembrar fico aguado...
Merecem destaque a esfiha de escarola e os pasteis de carne e palmito. Tudo feito na hora, com óleo sempre renovado, acompanhados daqueles sucos tosqueiras, de máquina, perfeitos na combinação "no-low fat" que este post evoca. Quando estou com vontade de chutar o balde, vou até lá, compro uma porrada de salgados para viagem e venho comendo enquanto dirijo para casa, no carro mesmo... Recomendo.

Yokoyama - Avenida Lins de Vasconcelos, 1365 - Cambuci.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Empório, Mercearia ou Restaurante?

O Empório Alto dos Pinheiros tem cara de mercearia sofisticada, mas é na verdade um belo restaurante. Fica numa rua movimentada, com vizinhos famosos (Bráz, Pirajá...), e sem chamar a atenção já conta com uma clientela fiel. Ao primeiro olhar, você não sabe ao certo se está entrando numa padaria daquelas que servem café da manhã. Com um pouco mais de cuidado percebe que não há pães. E quando deixa de olhar para as prateleiras cheias de produtos importados, daqueles difíceis de se encontrar no super mercado comum, percebe as mesas espalhadas por todo lado.

Uma bela surpresa para o Sábado, fui lá despretensiosamente, sem esperar muito. Saí muito, muito feliz. A comida é sofisticada, mas em boa quantidade. Experimentei o picadinho (ponta de faca, arroz, ovo poché e farofa), lugar comum, mas feito com capricho e deliciosamente saboroso. Também experimentei os cubos de filet mignon ao molho puxado no vinho com gnochis de semolina gratinados com parmesão - nem preciso dizer mais nada. Na nossa mesa ainda foi pedido um filet ao chimichurri que já está em primeiro na lista da minha próxima visita.

E além de tudo isso eles contam com uma excelente carta de cervejas artesanais nacionais. Tem desde cerveja de Ribeirão Pires, passando por Ribeirão Preto, Blumenau e Porto Alegre dentre outras. Muito bom, dá vontade de experimentar todas.

E por fim, ainda dá pra encomendar comida lá e levar pra casa pra um almoço ou jantar especial. E também eu preciso adquirir o saudável hábito de fotografar a fachada dos restaurantes agora que eu dei um up no celular...

JLN

Empório Alto dos Pinheiros - Rua Vupabussu, 305 - Alto de Pinheiros

Las Papas Quiméricas

Seguindo a fase Porteña do nosso Blog, não é novidade que nos últimos anos São Paulo descobriu com vigor uma de suas vizinhas de continente... Ou será que foi Buenos Aires que descobriu São Paulo? O fato é que hoje compartilhamos tanto, que se tornou fácil comer um bom bife de chorizo ou um alfajor Havana. Bom pra todo mundo, já que ambos são maravilhosamente deliciosos.

Foi outro dia que conheci um pequeno restaurante chamado O Bárbaro e, junto com ele, uma combinação de carnes maravilhosamente bem preparadas com uma alternativa às "papas fritas" ou ao "puré de papas". Chama-se "Papas Quiméricas" - uma massa de batatas em formato redondo, gratinada com queijo parmesão e recheada com requeijão e gorgonzola. Recomendo. A opção de carne, nas duas vezes que fui lá, foi o Bombom (um tipo de filet mignon com sabor puxado para o contra filet feito na brasa - de babar). Mas eles contam com toda a tradicional "carta de carnes argentina".

JLN

O Bárbaro Restaurante - Rua Doutor Sodré, 241A

sábado, 6 de dezembro de 2008

Não fui e não gostei - Espuma??

Eu poderia fazer uma sequência longa de posts "Não fui e não gostei" dos restaurantes da rua Amauri. Na minha humilde opinião, muito mais pra fazer um social do que pra comer - a impressão que eu tenho é que quem vai lá, não gosta realmente de comer.  Mas infelizmente, em alguns deles, já tive que colocar os pés, afinal, vira e mexe alguém resolve comemorar o aniversário lá, ou algo do tipo.

Acho que o que me incomoda mais lá é o fato de estar repleto de estabelecimentos que, para compensarem a falta de talento, ou de paciência, têm como sócios figurinhas carimbadas das colunas sociais.  Eles chamam os amigos, outras figurinhas carimbadas das colunas e, logo, tem um monte de gente indo lá querendo virar figurinha carimbada e pouco se importando se a comida é boa ou ruim.

Mas tudo bem, enquanto eles ficam fechadinhos lá, não estão atrapalhando ninguém, vai quem quer. O problema é quando eles começam a querer se espalhar pela cidade, ainda que perto de lá...  Pois bem, li sobre um restaurante novo, chamado Maní. O autor do texto começava falando sobre a qualidade dos chefs e coisas do tipo, o que não necessariamente significaria algo ruim, até o momento em que citou o João Paulo Diniz (praticamente o dono da rua Amauri) como sócio e, pasmem, a Fernanda Lima! Bom, não vou me alongar muito mais, mas catsso, o que a figura entende de comida??  Se fosse um restaurante de alface, vá lá... E ir a um restaurante cujos donos não são absolutos amantes da arte de cozinhar ou de servir, tô fora!

Só pra finalizar, o texto ainda falava um pouco dos pratos, com releituras de coisas tradicionais pela cozinha desconstrutivista...  Espuma de tucupi?  Faça-me o favor!

Não fui e não gostei!

JLN

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Não fui e não gostei


Proponho aqui mais um espaço de reflexão neste pretenso blog. Desta feita, não vale escrever do que se experimentou, com gosto ou desgosto, recomendando ou rejeitando. O alvo aqui é re-percutir (variante repercussão, percussão; como bater em bumbo - ou, em tradução livre, em quem a gente quiser bater) o que se publica, fala ou propagandeia neste mundo de meu deus, tão cheio de experts, guides, prizes & inaugurações gastronômicas.

Inauguro o "não fui e não gostei" com um evento ilustrativo e atual, para dar o clima.

Não fui e não gostei da Semana Mesa SP. Desembarcaram por aqui os pelés da gastronomia contemporânea, como Ferran Adriá e mais 16 chefes espanhois igualmente estrelados. Fizeram palestras, discutiram o futuro da gastronomia, deram até uma lambuja para o Alex Atala, único brasileiro subir na mesma onda que os demais convidados. E cozinharam para poucos. Inventaram o tal Jantar do Século, com 19 pratos especialmente criados pelos fodões para uma única noite inesquecível. Leiloaram os convites, com lance inicial de 5 mil pratas por cabeça. Lotou. Vai sifu! Eu não fui e não gostei.

Perdi a oportunidade de comer espuma de abóbora com microlascas de alface congelada em hidrogênio líquido e mais uma infinidade de BOBAGENS que pouco têm a acrescentar ao prazer de se comer bem.
Semana que vem eu detono o Jun Sakamoto e seu sushi de ouro. Aliás, vou detonar a gastronomia japonesa - para mim, uma contradição em termos.
Por fim, seria ótimo ser contestado neste espaço. Criar polêmica traz vigor ao cotidiano.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Buenos Aires é aqui

Tem um restaurante muito simpático em Embu das Artes, a pouco minutos de SP, especializado em cozinha argentina. Leia-se parrilladas & congêneres. É o Bar Buenos Aires.

O lugar é simpático, o atendimento é fora-de-série. O cardápio é simples, mas cheio de surpresas que se renovam a cada semana. Volta e meia eles oferecem pratos típicos argentinos, como o Locro e a alguma variante do matambre portenho, e convidam os clientes a uma viagem gastronômica muito bem executada.

No cardápio do dia-a-dia, prevalecem as carnes com cortes especiais, como os tradicionalíssimos bifes de chorizo e ancho, acompanhados de saladas variadas e de uma batata a provençal (Unq) de tirar o chapéu. A carta de vinhos é pequena, mas honesta. E as sobremesas são especiais, feitas pela chef Laurane Cerullo, expert no assunto.

Na outra ponta da cozinha está Hugo Ibarzábal, chef argentino que trouxe a receita das boas empanadas para o Brasil e tornou-se conhecido no Martin Fierro, da Vila Madalena, de onde saiu para abrir o seu Buenos Aires do Embu. No atendimento, ao lado do Hugo, está a simpatissíssima Alejandra, que pilota as mesas e recebe as pessoas com maestria (na foto do post, ela e o Hugo "acolhem" meu filho Guilherme, que já aprovou o bife ancho da casa)

As empanadas do Hugo são outro ponto fora da curva deste restaurante. Esta crítica eu deixo para o João de Lorenzo, que complementa e fecha este post.

Foi no Chile meu primeiro contato com as empanadas.  Experimentei e me apaixonei pela Empanada de Pino, como eles chamam por lá.  Massa fininha, assada no forno de pedra com recheio de carne em ponta de faca, um molho puxado na própria carne bem grosso com cebolas, temperos verdes, azeitona e ovo.  Uma delícia!!

Mas desde que se iniciou meu contato com os Argentinos, ouço dizerem que eles fazem as melhores empanadas (até aí, ouço também que eles têm o melhor futebol, o que é claramente uma "inverdade").  Até conhecer este pequeno restaurante do Embu, ainda tinha saudades das Empanadas Chilenas...  Não passo mais vontade, muito pelo contrário, fora todas as delícias já citadas pelo Soderi, a Empanada do Bar Buenos Aires (Unq) sozinha já vale a visita.

Bar Buenos Aires - Rua da Matriz, 62 - Embu das Artes - SP (http://www.restaurantebarbuenosaires.com.br) - UR=2